quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Sinais de Alerta em Desenvolvimento




Desenvolvimento é um complexo processo neuromaturacional que compreende o período embrionário até a fase adulta e tem como finalidade a aquisição de autonomia. Diferentes fatores de risco biológico e ambientais podem interferir negativamente no desenvolvimento infantil. O diagnóstico precoce e a intervenção atempada são fundamentais para maximizar o potencial desenvolvimental da criança com problemas.
Classifica-se três tipos de alterações de desenvolvimento: o atraso, o desvio e a dissociação. Igualmente preocupantes são também a paragem e a regressão do desenvolvimento.
As aquisições na área do desenvolvimento seguem geralmente um encadeamento lógico, por exemplo, antes de sentar, a acriança vai ter que controlar a cabeça, e frequentemente são os cuidadores quem primeiro percebem alguma alteração nesse quadro evolutivo. A vigilância do desenvolvimento psicomotor não deve ser separada das demais vertentes do crescimento e são avaliadas corretamente no conjunto.
O atraso no desenvolvimento consiste em uma defasagem entre a idade cronológica e a idade correspondente às aquisições demonstradas, quanto mais grave o atraso, mais provável de se se ter origem orgânica, ou seja, ser causado por lesão ao Sistema Nervoso Central.
A dissociação refere-se a uma diferença significativa entre várias áreas do desenvolvimento com uma área mais gravemente afetada. Exemplo disso são as crianças com paralisia cerebral que podem apresentar atraso significativo nas áreas motoras e desempenho adequado nas restantes.
O desvio diz respeito a aquisição não sequencial de competências em uma ou mais áreas do desenvolvimento, por exemplo, uma criança apresentar uma linguagem expressiva muito superior à compreensão pode refletir em uma utilização não comunicativa da linguagem, característica das perturbações do espectro autista.
A paragem e a regressão são respectivamente a ausência da evolução normal das aquisições e a perda das aquisições já verificadas. São sinais preocupantes e frequentemente se associam às doenças neurodegenerativas.
Os fatores de risco são situações adversas em que a criança pode estar sujeita a desenvolver problemas correlacionados posteriormente com défices em uma ou mais áreas do desenvolvimento. Podem ser fatores de risco ambientais ou biológicos. Nos fatores ambientais, a criança é genética e biologicamente normal, mas está inserida em um contexto de privação e no risco biológico, essa criança passou por situações com forte potencial para lesar o SNC. Em todos os casos a intervenção precoce pode minimizar o impacto dos diferentes fatores de risco.  
São fatores de risco biológico:
Peso de nascimento inferior a 1500g ou idade gestacional menor que 34 semanas, recém nascido leve para a idade gestacional, asfixia perianatal, índice de Apgar inferior a 3 aos 5 minutos e evidência de disfunção neurológica, necessidade de ventilação mecânica, evidência clínica de anomalias do SNC, Hiperbilirrubinémia em recém nascidos de termo, infecção congênita, meningite/ sépsis e TCE grave. 
São fatores de risco ambiental:
Família em situação de pobreza, pais adolescentes, pais com patologia psiquiátrica importante, pais toxicodependentes, pais com déficit cógnito, pais com déficit sensorial significativo, pais com perturbação antissocial, falta de estrutura e apoio familiar e social, maus tratos e negligência, crianças institucionalizadas, separação prolongada da criança.


Mês
Idade
Postura e Motricidade
Visuomotricidade
Audição e Linguagem
Comportamento e adaptação social
1º
Ausência de tentativa de controle da cabeça na posição sentada.
Hipertonia ou Hipotonia em pé.
Nunca segue a face humana
Não vira a cabeça e olhos para o som (voz humama)
Não se mantém em situação de alerta por breves períodos
3º
Não controla a cabeça
Mãos persistentemente fechadas
Membros rígidos em repouso
Pobreza de movimentos
Não faz contato ocular
Não fixa nem segue objetos
Sobressalto ao menor ruído
Não sorri
Chora e grita quando tocado
6º
Ausência do controle da cabeça
Não se senta sem apoio
Membros inferiores rígidos e passagem direta à posição de pé quando se tenta sentar
Não apoia os pés no chão
Mantém reflexo de extrusão
Postura muito rígida ou muito mole
Assimetrias
Não segue objetos
Não agarra objetos com as duas mãos
Estrabismo manifesto e constante
Não responde à voz
Não responde ao seu nome
Não vocaliza
Não gosta de estar no colo de ninguém
Irritabilidade, inconsolável
Não sorri, dá gargalhadas ou tenta chamar a atenção do adulto
Desinteresse pelo ambiente
9º
Não se senta sem apoio
Não estende os braços
Não levanta a cabeça
Sentado não usa as mãos para brincar
Não rola de decúbito ventral
Permanece sentado e imóvel sem procurar
mudar de posição
Assimetrias
Não transfere objetos de uma mão para a outra
Sem preensão palmar, não leva objetos à boca
Engasga-se com facilidade
Estrabismo
Não reage aos sons
Vocaliza monotonamente ou
perde a vocalização
Apático
Não distingue familiares
12º
Não se consegue levantar sozinho
Não gatinha (ou forma equivalente)
Não aguenta o peso nas pernas
Permanece imóvel, não procura mudar de posição
Assimetrias
Não usa gestos simples: apontar, abanar a cabeça…
Não bate dois objetos um no outro
Não tem permanência do objeto
Não aponta para objetos
Não pega nos brinquedos ou fá-lo com uma só mão
Não mastiga
Sobressalto ao
menor ruído. Não diz nenhuma palavra
Não responde à voz
Não faz gestos simples como
dizer adeus ou abanar a cabeça















Inspiração: Sinais de Alerta em Desenvolvimento (Developmental red flags)
 Teresa Mota Castelo, Boavida Fernandes
SAÚDE INFANTIL 2009 // 31 (1): 12-17 ABRIL


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Impulsividade ou Impulsividades?


A impulsividade é uma característica presente em diversos transtornos neuropsiquiátricos. Ela é um sintoma que aparece no Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), nos transtornos disruptivos, como Transtorno Opositor Desafiante e de Conduta, no Transtorno Explosivo Intermitente, no Transtorno Afetivo Bipolar, nas Dependências Químicas, nas personalidades Histriônicas e Borderlaine, Antissocial e Narcisista.
Os atos impulsivos são executados forçosamente sem deliberação ou reflexão, sob a influência de uma pressão poderosa que restringe a liberdade de vontade do sujeito. O controle reflexivo ou a consideração de consequências estão ausentes na presença do comportamento impulsivo, assim, a pessoa que age sob esse imperativo tende a ser intempestiva em resposta a quaisquer estímulos internos e externos, sem capacidade de ponderação. Possuem atitudes e tomadas de decisões tendo por base resultados imediatos, sem pensar no que poderá vir a médio e longo prazo.
Sobre os transtornos nos quais a impulsividade exerce um papel importante é possível dividi-los em dois grupos, os que apresentam prioritariamente a perda da capacidade inibitória e outro grupo que inclui essencialmente a exacerbação dos impulsos. No primeiro grupo existe a perda da inibição por instabilidade afetiva, por deficiência das funções atencionais e executivas e por deficiência na capacidade de estabelecer empatia. No segundo grupo pode-se identificar a perda de controle sobre a agressividade, apetites e desejos. Desta forma pode-se perceber o quanto o fenômeno impulsividade é complexo e determinado por diferentes mecanismos fisiopatológicos.
Diante do exposto, pode-se constatar que não existe um tipo de impulsividade, e sim tipos diferentes de impulsividades, sendo assim, o mecanismo fisiopatológico dependerá do tipo de impulsividade apresentada.
Na impulsividade afetiva ou motivada, comum em dependentes químicos ou de certos comportamentos compulsivos como o jogo, comida, sexo, compras... encontra-se envolvido o chamado “sistema de gratificação cerebral”, que está localizado na região posterior do núcleo estriado e envolve o núcleo accumbens e área tegmentar ventral. Essas regiões em conexão com outras áreas cerebrais ativam vias cerebrais que identificam estímulos aversivos e gratificantes, bem como vias endofinérgicas, que conferem caráter hedônico, ou seja, prazeroso, além de despertamento de memórias afetivas.
Já na impulsividade do TDAH sobressaem anormalidades nas vias entre o córtex pré–frontal dorsolateral, giro do cíngulo e corpo estriado, que estão ligados à vigilância, orientação e atenção seletiva. Resulta a impulsividade ligada às funções atencionais e falhas no controle executivo.
Nos transtornos de personalidade como Borderline nota-se uma impulsividade primária, apresentada por sensibilidade exacerbada a estímulos, comportamentos precipitados e labilidade emocional. Acredita-se que isso se dá tanto por falhas tanto no processamento do córtex pré-frontal quanto no sistema límbico e conexões.
A impulsividade ligada à agressividade que aparece nos comportamentos suicidas e automutilatórios, bem como na agressividade heterodirigida, como no transtorno explosivo intermitente, acredita-se que está associada a uma atividade serotoninérgica central reduzida, sendo que o comportamento de ataque é motivado por mecanismos que  estão difusos no Sistema Nervoso Central, os circuitos envolvidos são vários, sendo o sistema serotoninérgico disfuncional leva a um indivíduo menos tolerante ao convívio social e mais impulsivo.
O último tipo de impulsividade a se comentar é a que se liga aos comportamentos antissociais. As áreas pré-frontais relacionam-se tanto ao planejamento de ações quando ao controle e motivação.  Lesões afetando estruturas basolaterais geram apatia e retraimento, enquanto que lesões no córtex pré-frontal ventromedial (CVM) levam a um quadro de liberação comportamental e conduta antissocial. O CVM é responsável pela empatia, que é a habilidade do indivíduo fazer a representação do outro através de seu córtex somatossensorial e ter a noção do este outro estaria experimentando em determinadas situações. Essa capacidade de compreender o que os indivíduos pensam e sentem é exatamente a deficiência nos indivíduos de conduta antissocial, a falta de empatia. Ainda pode-se dizer que o CVM processa a compreensão das emoções e utiliza-as na tomada de decisões.
É certo que, ainda que não em um nível de transtorno, todos nós possuímos certo grau de impulsividade em alguns momentos da vida. Com qual tipo de impulsivo você se identifica?


Fonte: Tratado de Neuropsiquiatria – Leonardo Caixeta, 2014. 

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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Transtorno de Linguagem não é o mesmo que Dislexia

  Tenho visto uma certa confusão entre o que é chamado de Transtorno de Linguagem e o que é chamado de Dislexia. Essa confusão acontece até mesmo entre os profissionais que atuam no âmbito educacional e clinico, trabalhando com crianças que podem ter um ou outro distúrbio. 
  A dislexia, apesar de estar diretamente ligada ao conceito de linguagem, trata-se de um transtorno de aprendizagem e está restrito ao campo da leitura. Então, pessoas disléxicas encontram dificuldades preponderantes na aprendizagem e automação dos processos leitores e possuem prejuízos na precisão da leitura de palavras, velocidade, fluência da leitura e compreensão do que foi lido. Nota-se que crianças pequenas que possuem risco para o transtorno já apresentam alguns sinais antes mesmo de entrarem em contato com a leitura em si, como por exemplo, insensibilidade a rimas, dificuldades em separar sílabas, imaturidade na capacidade de pronunciar fonemas, ou seja, a permanência da chamada "conversa de bebê". 
 O transtorno de linguagem, diferentemente dos transtornos de aprendizagem, é categorizado como um dos transtornos da comunicação, juntamente com o transtorno da fala, transtorno da fluência com início na infância (gagueira) e transtorno da comunicação social (pragmática). 
  O transtorno de linguagem tem como sintomas a dificuldade persistente na aquisição e uso da linguagem, tanto falada, quanto escrita, de sinais..., vocabulário reduzido no uso e conhecimento das palavras, estrutura limitada das frases e capacidades linguísticas aquém do esperado para a idade. Esses déficits afetam no bom desempenho social e acadêmico e profissional da pessoa. 
  Crianças com esse transtorno podem ser afetadas tanto no nível da linguarem expressiva (quando ela fala), quanto receptiva (quanto ela recebe a fala do interlocutor). Na prática, pessoas com este transtorno possuem dificuldades ao encontrarem as palavras, se expressam com definições verbais pobres ou possuem compreensão limitada de sinônimos, falas com múltiplos significados ou jogos com palavras. As deficiências do discurso se evidenciam pela redução da capacidade de fornecer informações adequadas sobre eventos importantes e narrar histórias de forma coerente. 
  Tanto a dislexia do desenvolvimento quanto o transtorno de linguagem devem ocorrer no curso do desenvolvimento infantil e não é possível fazer esses diagnósticos se os problemas surgem tardiamente, porém, muitos adultos crescem passando por inúmeros infortúnios ao longo da vida sem serem diagnosticado, por isso, é importante fazer uma avaliação para a elucidação dos sintomas e tratamento adequado mesmo que seja na vida adulta. Além disso, outra coisa que não compatível com esses disgnósticos é quando os sintomas são melhor explicados por deficiências intelectuais ou sensoriais. 

  

sábado, 6 de agosto de 2016

                              Como Lidar com os Distúrbios do Sono em Crianças

        É muito frequente que os pais relatem que os filhos em idade escolar tenham algum distúrbio do sono, tal como despertar a noite ou falar durante o sono. Distúrbios desta natureza podem ser causados por uma ativação acidental do sistema de controle motor do cérebro, por uma respiração desordenada ou movimentos agitados das pernas. 
      Na maioria das vezes eles são ocasionais e desaparecem com o tempo, mas quando se tornam persistentes podem indicar um distúrbio emocional ou neurológico.
      Vamos falar um pouquinho sobre alguns tipos de problemas do sono que comumente aparecem na infância. 

  • Terror Noturno: caracterizado pelo despertar abrupto no início de uma noite de sono passando de um sono profundo para um estado de agitação em que a criança pode gritar, sentar-se, ficar ofegante e com os olhos arregalados, contudo, ela não está realmente acordada, se acalma rapidamente e na manhã seguinte não se lembra nada do episódio. Como Lidar: Não desperte a criança, se ela acordar, não faça nenhuma pergunta, apenas aconchegue-a e deixe que ela volte a dormir. Ajude a criança a dormir o suficiente e em horário regular. Crianças que dormem muito cansadas ou estão estressadas são mais vulneráveis aos terrores noturnos. 
  • Sonambulismo: caminhar e falar durante o sono são comportamentos razoavelmente comuns e embora o sonambulismo seja em si inofensivo, os sonâmbulos podem correr riscos de acidentes. Como Lidar: É melhor não interromper, uma vez que interrupções tanto do sonambulismo quanto do terror noturno pode amedrontar e confundir a criança e geralmente são fenômenos esporádicos e passageiros. Mas deve-se levar a criança de volta para a cama no colo ou caminhando e é aconselhável que se proteja a casa com cancelas no topo de escadas, grades nas janelas, sininhos na porta do quarto de maneira a saber quando a criança está fora da cama. 
  • Pesadelos: pesadelos também são comuns, contudo, quando muito frequentes ou se persistem por mais de seis semanas, é ideal que se procure um profissional para uma avaliação. Como Lidar: evitar que a criança vá para a cama muito tarde, que se deite após agitação excessiva, talvez depois de assistir um filme de terror ou ouvir histórias assustadoras. É ideal que a alimentação antes do sono seja leve, pois a digestão pesada também pode interferir neste processo. 
  • Enurese Noturna: Apesar da maioria das crianças já terem um bom controle do xixi dos três aos cinco anos, algumas apresentam a urinação involuntária e repetida à noite. Na maioria dos casos em que esse controle da bexiga se dá de maneira tardia, o problema cessa por volta dos oito anos sem ajuda de especialistas. Como Lidar: A criança não deve ser culpada ou punida, Apesar de parecer um problema causado por má vontade ou acomodação da criança, muitas vezes ele se dá devido ao tempo de desenvolvimento da criança e isso é muito particular e pode variar de caso para caso. Nenhuma punição ou recompensa ajudará a criança a vencer o problema até que o seu desenvolvimento esteja pronto. Caso a enurese persista após os oito anos, pode ser sinal de alguma dificuldade emocional, de autoestima ou outro fator, desta forma, é ideal que se procure ajuda profissional. 



                                          


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Fonte: Desenvolvimento Humano. Papalia e Feldman, 2013. 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Algumas dicas de como ajudar no desenvolvimento emocional das crianças

Tão importante quanto aprender matemática é o aprendizado de como lidar com as emoções.
                                                     
                O processo de desenvolvimento emocional envolve o aumento da capacidade de sentir, entender e diferenciar emoções, bem como autorregulá-las, para que a pessoa se torne adaptado ao ambiente social e atingir metas presentes e futuras. Escolher entre fazer a lição de casa ou assistir o desenho na televisão, comer um chocolate naquele momento ou esperar o almoço, gastar um dinheiro com um objeto de pouco valor ou juntar por mais tempo e poder comprar um objeto de maior valor e mais desejado... São decisões que se opõem, exigem o gerenciamento do conflito entre as escolhas disponíveis e se relacionam com a capacidade de controlar os impulsos para a gratificação imediata em benefício de uma escolha que é menos imediata e automática.  
Como vivemos em sociedade, entender nossas próprias emoções e as dos outros é extremamente importante e existe uma boa parte do cérebro dedicada a isso. Emoções básicas como Alegria e Medo, diferem de emoções morais como Vergonha, Culpa e Orgulho. Compreender e administrar as emoções morais exige uma internalização das normas e princípios compartilhados pela comunidade.
           É necessário também entender as emoções de outras pessoas (Empatia), atribuir estados mentais, ou saber interpretar o que o outro está pensando (Teoria da Mente) e não menos importante é saber regular suas próprias reações emocionais, tanto as positivas quanto as negativas. Imagine a seguinte situação, uma criança fica tão empolgada e entusiasmada com um passeio que haverá na escola, que não consegue dormir e se alimentar adequadamente no dia anterior e na hora do passeio não se sente bem devido à dificuldade de lidar com a ansiedade antes do evento tão esperado. Outra situação, uma criança adora jogar bola com os colegas, mas sempre que seu time perde ou sofre um gol ela se descontrola e não consegue lidar com frustração partindo para a agressividade.
                As funções executivas, que são habilidades envolvidas na regulação de todos os processos mentais superiores como os que envolvem linguagem, memória e raciocínio lógico, também está diretamente envolvida na resolução de problemas que envolvem emoções. Por exemplo, decidir entre comer ou não comer um pedaço de bolo e furar sua dieta, pode ser mais difícil que raciocinar se um número é par ou ímpar. A diferença é que o primeiro problema tem cunho emocional e o outro é neutro. Assim, alguns autores estabelecem a diferenciação entre os aspectos das funções executivas entre “frios” e “quentes” a depender se o processo é puramente cognitivo (frio) ou se tem um caráter afetivo (quente). Apesar de ambos os mecanismos envolverem as funções executivas e o Lobo Pré-Frontal, as vias e áreas relacionadas aos processos podem ser diferentes.
                O desenvolvimento adaptável das emoções está vinculado ao bem-estar da criança e as dificuldades com a regulação emocional está relacionada com perturbações de humor e problemas comportamentais. Assim, a capacidade de inibir comportamentos inadequados, nomear e reconhecer emoções, esperar sua vez, compreender o outro, bem como encontrar soluções alternativas para um problema, está amplamente ligado ao próprio amadurecimento biológico dos lobos frontais, no entanto, essas funções podem ser trabalhadas e desenvolvidas de maneira mais efetiva ao longo do desenvolvimento.  
Algumas dicas de como ajudar no desenvolvimento emocional das crianças:
-No momento de uma crise de raiva do pequeno, ajude-o a nomear a emoção que ele está sentindo, por exemplo: “Você está sentindo raiva, pois...” Insira perguntas “Como você poderá lidar com isso? ” “Como podemos resolver este problema? ”
-Em uma situação em que algum colega se machucou e ficou triste, ajude-o a compreender o sentimento do outro. Exemplo: diante da criança chorando nomeie a emoção (tristeza) e mostre como o colega pode tentar ajudar e solidarizar-se para diminuir o desconforto do amigo.
- Brincar com figuras de expressões faciais e pedir que a criança diga o nome da emoção expressada em cada uma das figuras e pedir para ela que lembre situações em que se sentiu como a expressão da ilustração.
- Contar historinhas com situações hipotéticas e pedir que a criança atribua o sentimento ao personagem diante da cena ilustrativa.
-Diante de um conflito entre duas ou mais crianças, leve-as a refletir como o outro se sentiu diante do seu comportamento. Ou até mesmo em uma situação problema com um adulto, reflita com a criança como ela acha que você se sentiu.




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Fontes Inspirativas:
Fragoso, Intervenção em Funções Executivas, compreensão e metacompreensão de leitura em crianças com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, São Paulo, 2014;

http://www.enciclopedia-crianca.com/funcoes-executivas/segundo-especialistas/funcao-executiva-e-desenvolvimento-emocional

sábado, 16 de julho de 2016

O sorriso falso não engana mais...

Sabe aquele sorrisinho forçado que você teve que dar para aquela pessoa não tão querida? Ou aquele dia que você não estava muito no clima e teve que sorrir para uma foto com a família?
Pois é.. Você pode até achar que sabe,  mas o seu cérebro não sabe fingir sorrisos perfeitos.
A razão para isso é que as áreas cerebrais ativadas em um sorriso espontâneo são diferentes das áreas associadas ao falso sorriso.
Segundo estudos, a dificuldade de sorrir sem vontade verdadeira reside no fato de que o sorriso social é acionado por um "feixe piramidal", ou seja, um conjunto de prolongamentos de neurônios que tem início no córtex motor primário do cérebro  que controlam o movimento voluntário por meio dos nervos periféricos, desta forma, produzimos o conhecido como "sorriso piramidal" ou sorriso de cortesia.
O sorriso espontâneo, diferentemente, é produzido sem o controle voluntário pelo "cíngulo anterior", uma área mais interna do cérebro, sem passar pelo controle volitivo, sendo assim, esse sorriso não é tão fácil de reproduzir e representar.
A diferença no autor do sorriso é que os músculos ao redor da boca que movimentamos ao sorrir formando a característica de um U, podem facilmente serem movidos pelo controle voluntário não emocional, ou seja, o córtex motor. Já o sorriso sincero movimenta também a lateral dos olhos, os famosos pés de galinha, os quais não são estimulados com facilidade e são controlados por córtices límbicos (cíngulo anterior) e para isso não possuímos nenhuma via anatômica que exerça com perfeição o controle consciente sobre essa área.
Atores simulam emoções, ou melhor, expressões emocionais, com grande verossimilhança a partir de conhecimentos pormenorizados de como a expressão é percebida pelo observador externo. O fato de poucos conseguirem triunfar e se tornarem grandes atores é um sinal dos obstáculos que a fisiologia do cérebro lhes coloca.
Sendo assim, a carreira de atores e políticos depende desse arranjo simples e incômodo da neurofisiologia.
E aí?? Já consegue identificar qual dos dois sorrisos é o verdadeiro?

(Texto inspirado no livro O Erro de Descartes - Emoção, Razão e Cérebro Humano 
Antônio R. Damásio. )
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quinta-feira, 14 de julho de 2016

                               

Uma pessoa 100% racional seria mais assertiva em suas decisões? 

   
                                           


É corrente o pensamento de que as emoções atrapalham no desempenho do raciocínio. Dizem: “aja de cabeça fria” ou “mantenha as emoções afastadas”, indicando que o processo emocional confunde ou deturpa o curso de uma tomada de decisão. Se a emoção é prazerosa desfrutamos dela como um luxo, se é dolorosa, a temos como um intruso impertinente.
Certamente as emoções mal controladas ou desgovernadas podem trazer grandes prejuízos e ser uma das principais razões do comportamento irracional. Por exemplo, é mais provável que um doente aceite de bom grado um tratamento se lhe dissessem que ele tem 90% de dar certo, do que se for informado de que 10% das pessoas que passaram pelo mesmo tratamento faleceram. Precisamente o resultado final é exatamente o mesmo, contudo, sentimentos que surgem associados à ideia da morte levam até mesmo aos médicos, com conhecimento disponível, a rejeitarem a segunda opção.
Todavia, estudos de pacientes com lesões no lobo pré-frontal do cérebro e que perderam a capacidade de sentirem emoções passaram a se comportar de maneira irracional. Desta forma, pode-se fazer uma importante ligação entre a deficiência na tomada de decisão e a perda das emoções e sentimentos.
Na prática, doentes atingidos nesta parte do cérebro possuem uma percepção normal, sua orientação em relação a pessoas, locais, e tempo é normal, as capacidades motoras e linguísticas não foram afetadas, bem como a inteligência parecia intacta, de acordo com os testes psicológicos aplicados. Conseguem fazer cálculos ou jogar damas, mas apesar disso, suas vidas são simplesmente destroçadas, suas personalidades jamais se igualaram ao que eram antes dos acidentes ou doenças que atingiram o cérebro.
Esses pacientes têm a vida emocional empobrecida, de vez em quando podem ter rápidas explosões emocionais, mas a maior parte o tempo tais explosões não ocorria, não existem sinais de que nutrem sentimentos por outros, nem sinal de vergonha, tristeza ou angústia perante a tragédia ocorrida em suas vidas. O afeto global é descrito como superficial, tornando-os incapazes de escolher entre um melhor curso de ação, apesar de terem suas capacidades intelectuais intactas, as emoções e sentimentos estavam muito comprometidos.
Os doentes se tornam desprovidos de imaginação, destituídos de iniciativa, nunca adquirem capacidades profissionais ou hobbies, a recompensa ou punição não parece influir em seus comportamentos. Rígidos e perseverantes, falta-lhes originalidade e criatividade, eles têm a tendência de vangloriarem-se e ter uma imagem favorável acerca de si mesmos, geralmente exibem modos corretos, mas estereotipados, estavam desta forma menos aptos que os outros a sentirem prazer ou reagirem a dor, impulsos sexuais diminuídos, ausência de defeitos motores, sensoriais ou comunicativos, com a inteligência geral dentro do que seria esperado, porém, incapazes de construir uma vida apropriada acerca de seus papéis social na perspectiva de passado e futuro.
Essas pessoas, desprovidas de emoções, jamais sentem ansiedade ou agitação, ao contrário, esses sentimentos dão lugar a uma calma extrema, as emoções ficam estagnadas e o paciente é incapaz de sofrer.

Sob essa ótica, as emoções não são meramente um luxo, elas desempenham uma função na comunicação de significados a terceiros e podem ter também um papel na orientação cognitiva e noção de futuro. 


(Texto inspirado no livro O Erro de Descartes - Emoção, Razão e Cérebro Humano 
Antônio R. Damásio. )
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